quarta-feira, 7 de julho de 2010

Contraste


Todos tão iguais e tão peculiares, difícil mesmo é agüentar a si. Sou o poeta dos clichês, das frases mal acabadas e dos versos sem significado, triste estou feliz fui, guardarei isso para mim. Levarei como nódoa, cicatriz dos tempos das estradas de árvores muito verdes, frustradas pelo chumbo. Sempre o mesmo contraste, maldito e santo, bom e mal, fonte única, caixa de Pandora envolvida pela mortalha de Penélope. Boneca de pano, manual da infelicidade, café preto, combustível para o tédio, matemática, disfarce da metafísica. Ser humano, verbo ambulante, variável, conjugável, classificável. Elemento principal dessa regência que modifica a ortografia da vida sem nenhuma concordância. Relevância, gêmea da ignorância, que cala, que sente, consente e quase sempre mente.Cultura, maquina que ilumina e cega, ou cega e ilumina. Democracia, nada. De novo o maldito, ou mal tido, contraste, delineador invisível da existência, se é que existe, e se não existe, porque? A única e verdadeira razão para divagarmos dessa forma, é que não há razão, somos formigas operárias, sempre a construir sua toca , a espera o primeiro chute ou da primeira chuva. Não há um propósito único, um motivo intrínseco, há apenas contraste, que nos afoga, que nos levanta, um trajeto circular sem linha de partida, o “ser ou não ser” de Hamlet que configura a epopéia da humanidade.

domingo, 4 de julho de 2010

Dia a Dia


Falar sobre a despersonalização é banal. Que triste. A única felicidade na rotina que criamos, se resume ao momento em que finalmente poderemos sair dela por algum tempo. Vivemos os dias da semana um a um ou na realidade, todos em um. Nossa vida se divide crucialmente em dois momentos, aquele em que somos o que devemos ser e outro aonde somos o que queremos ser não necessariamente nessa ordem e de forma alguma isolada pois sempre somos um pouco daquilo que queremos e muito daquilo que devemos. É impressionante a capacidade humana de criar limitações para si , e como são totais. A repetição cotidiana que desenvolvemos nos prende ao mundo assim como a gravidade nos prende ao chão, e o mais curioso é que já conseguimos vencer a física e no entanto perdemos diariamente a briga do homem criado contra o criado pelo homem. Será que ninguém percebe aonde nos metemos? Basta olhar os rostos sem expressão, o quanto somos carentes de nós mesmos, o quanto precisamos falar. Aperfeiçoamos a máquina mais lucrativa de todos os tempos, a solidão. Todos os dias as companhias telefônicas ganham bilhões com a infelicidade , é como se implorassemos por atenção com um grito mudo. Perdemos a sensibilidade, as maiores maldades e injustiças são as mais sutis, aquelas que cometemos sem perceber, e que através disso nos justificamos. Constituimos a maior nação de tiranos ignorantes. Vadios sem destino,hipócritas,cínicos, estúpidos, assasinos, cumplices, animais, no fundo tudo a mesma coisa, tudo que é e não devia ser, tudo igual e tudo desigual, tudo que somos e tudo que sofremos, tudo que avança e tudo que regride, tudo que ensina e tudo que domina.