domingo, 27 de junho de 2010

Andarilho




O homem vai pela estrada do deserto do mundo. Sem saber aonde ou porque mostra-se impávido, é preciso seguir, assim indicam as placas. A sua frente enxerga a enorme tormenta que vem sacudindo a areia e terra. Sem exitar ou sequer refletir, segue seu caminho em direção ao furacão, ele aprendeu que é a prova de tempestades. Em sua jornada, foi orientado a nada temer a não ser a si. Não há desastre que o impeça de seguir, a não ser sua própria sede insaciável, não há nada que o impeça de ver, ainda que cego. Volta e meia tenciona saber qual direção seguir, fingindo que realmente existe opção. A vida, pois, não é nada além de uma longa caminhada, com seus solilóquios, suas tempestades, suas direções rigorosamente definidas, limitada a eterna busca de um oásis que sempre é uma miragem, tão intensamente real quanto fugaz.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Saramago




Hoje o dia amanheceu com um brilho tênue, a diferença entre luz e sombras já não é tão nítida.
A densa névoa se condensa cada vez mais na ignorância , os astros se tornam mais raros, e a humanidade se esquece de o quanto um céu estrelado é importante para um dia de sol.
Os ideais se dissolvem em tons de cinza claro, a liberdade é cada vez mais teatralizada e nesta peça somos os expectadores impotentes.
Não existem mais bifurcações, as estradas foram reformadas e agora limitam-se a existir paralelamente iniciando no mesmo ponto e tendendo ao infinito.
Nossas lutas se dissolveram em sutilezas, o mecanismo que hoje limita a todos nasceu de uma luta muito particularmente nossa, nos enforcamos com nossos cordões umbilicais.
Criamos um circulo de blasés que ofusca nossa visão, e não há óculos suficientes.
Hoje mais um timbre de nossa voz se esvai, dentre últimos graves o suficiente para serem escutados e agudos o suficiente para causar incomodo.
Estamos roucos, falidos, desafinados e agora somente a banda parece nos guiar por uma infinita melodia de uma justiça injusta.
Os verbos, a partir de agora serão só crisálidas, impressas classificadas conjugadas e sem nenhum sentido.
Os dicionários já não servem de referencia, as palavras perderam quem as fizesse significar, é triste ver os pontos e as virgulas voltando a seu lugar de origem.
O maestro se foi, o tambor agora destoa em um ritmo frenético aplaudido pelos senhores da humanidade.
Entre o compasso das batidas as fronteiras somem, os muros caem as nações se unem e tudo parece convergir para a construção dessa magnífica ordem que carinhosamente apelidamos de CAOS.