quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Alucinação


Falei muito, disse pouco, distorci tudo em uma alucinação, converti toda minha indignação em um ponto, e o reduzi a uma alegria breve, uma fraqueza imperdoável palavras fúteis, de uma grandeza falsa, de uma ostentação imprudente. Maldita vida, que me fez como sou, me subverteu, me fortaleceu, maldita pessoa, cheia de defeitos e qualidades, forte e descontente.Agora me sinto em outro mundo, não que algum dia tenha pertencido a este que chamam de terra, mas que por muito tempo persisti em tentar manter as aparências. Não sou humano, nem divino, nem igual nem diferente, apenas uma luz que pisca sem sentido, um farol que guia o nada, uma pequena alegria despedaçada, uma água borbulhante, com seu calor sua energia sua liquidez, sua permanência e sua ausência, sua existência fugaz. Não nasci pra viver cem anos e nem vinte, nasci pra viver o quanto tiver a dizer, e quando não tiver nada, a procurar. Sou covarde de certa forma, valente de outra, não importa, são só valores falsos que pensamos acreditar que valem algo, talvez por serem valores, talvez por serem a única coisa que realmente temos. Não há sentido para a vida e nem para a morte, só há dinâmica e contraste, sendo esse segundo parte integrante, importante do primeiro. Não existe contraste sem dinâmica, e por outro lado sem dinâmica, contraste não tem sentido.Isso é o que nos move, e até parar é se mover. Não importa o quanto somos diferentes, no fim somos iguais, fracos e fortes, pueris e imortais, tristes e felizes, sempre um paradoxo, uma idéia contrária uma eterna insatisfação que se torna ao mesmo tempo rancor e vida. Por que é preciso estar fora para enxergar? Por que é preciso estar dentro para viver? Por que quanto mais enxergamos mais percebemos que somos cegos? Por que quanto maior a reflexão maior a impotência? Não vou escrever coisas boas, alegres, seriam falsas, talvez eu seja um pessimista incurável, mas não aprendi sozinho, minhas experiências delinearam isto que chamam de personalidade. De certa forma sou feliz na medida que posso, até a tristeza traz um pouco de felicidade, ainda que curta e diversa. Não tenho mais muito a dizer, não estou são, quer dizer, nunca fui são, mas agora me entrego a minha insensatez como se fosse a única forma de permanecer. Os melhores poetas de ontem já se foram, não ouso me classificar dessa forma, sou apenas alguém cheio de idéias, ideologias reprimidas. A falta de talento faz de mim um nada, um nada que precisa escrever, sem objetivo, mesmo que ninguém leia, mesmo que ninguém ligue, mesmo que tudo isso se perca nesse momento. Passaria a madrugada inteira escrevendo, precisaria encontrar um meio de parar de ensaiar e realmente falar, mas meu verbo é mudo, precisaria de criatividade para criar uma história, personagens, contexto, local, enfim, arte. De momento sou somente uma luz que acende e apaga sem interrupção. Logo o sol irá nascer, um novo dia nascerá, diferente de ontem, e ao mesmo tempo idêntico, sua essência, não sua estrutura, começa com em um amanhecer tímido, que cresce aos poucos e no final se configura num poente indescritível. No entanto essa luz que resplandece, encarada muitas vezes como o reflexo da esperança em uma história ainda não existente, nada mais é do que a ânsia imprudente pelo amanhã, vontade inenarrável, infinita e necessária, isso é o que sou, nada, tudo uma brisa, uma vida, um ideal infinitamente surreal.

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